Terça-feira, Setembro 26, 2006

Também eu estou Farta!

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.



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eu também gosto de palhaços Tio Manuel Bandeira.

acredita, fosses tu vivo agora e bastava-te abrir um jornal ou um televisor para te entrar um mar de palhaços casa dentro, sem lirismo nenhum.

water-photography

Sexta-feira, Setembro 15, 2006

ma que jete, moce?!

at Alamy

o que me dá même raiva, daquela de enfurecer é ver tanta gente inútil a comer e a beber, de cravo vermelho em riste como se fosse bandeira. quando nunca lá estiveram e nem poderiam estar.

comem bebem como odres e viva a revolução!
(são os vampiros de agora?)

a revolução? é de rir!
se fosse feita por eles, se assim foi mal acabada, nem chegava a começar. era cravo por abrir.

é que ele houve quem lutasse e até mesmo quem morresse sem ninguém os conhecer. desses não se ouve falar.

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Um copo de vinho fresco
como um fresco pensamento.
Vinho fresco
teve o sol por fermento.

Um copo de vinho fresco
em Lisboa, Campolide.
Um amigo que foi morto
pela Pide.

Um copo de vinho fresco,
consciência revoltada,
mecanismo tic-tac
de granada.


Fernando Correia da Silva



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vim só separar as águas, que tenho o copo cheínho, à beira de transbordar!

Quinta-feira, Setembro 14, 2006

ó moce, tu tem-te quete!

davidkphotography


é que tás só e...nem sabes.


Poema do Homem Só


Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.



Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem



Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.



Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.



Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.



Mas este íntimo secreto

que há no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguém.



António Gedeão.



(desculpem possíveis erros por citado de memória)

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

admirem

.rosa trombitas

a verdadeira destreza na corrida dos cavalos

não se esqueçam da força que eles têm nas patas

Domingo, Agosto 13, 2006

Há homens que são Homens

e há outros seres difíceis de entender ou definir.

André partiu de barco, levando a arma e a certeza de encontrar Irene.

- Se afinal não se foi com ninguém e está na nossa ilha, vai ficar contente por me ver. Sempre ficou. Mesmo quando nos zangávamos era fácil levá-la a perdoar...

Bill Schmoker

Chegado à Ilha, as aves tentaram-no como sempre faziam: "em voo, só em voo, não vou aos ninhos!", gabava-se quando alguém o criticava e, disparou.

O tiro ecoou no silêncio só cortado pelo ruído do mar a quebrar na areia branca, ou nas pedras do lado oposto da ilha.


grandespirito

Irene ouviu-o e estremeceu. Correu para o filho como que a protegê-lo. Ficou abraçada à criança.

- Que foi mãe?

- Um pobre aleijado que se atirou do ninho, antes de lhe crescerem as penas nas asas e, nunca saberá o que é voar.

Esquece menino, não terás de o conhecer enquanto a mãe puder.

Ridículos cobardes!

Murmurou de forma a que o filho a não escutasse já.


Silvestre
Do outro lado da Ilha, Fernando seguia o trilho da mulher que amara desde sempre e por respeito ao amigo lhe entregara sem luta.

- Não, ela pode não me querer, mas com ele sei que não vai ficar. Ou ficará?

Como dizer-lhe que ele não mudou nada, que nunca irá mudar?



(fim ao vosso critério)

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

intervalo

magda marczewska

Estranha a Ilha.

De um lado areia fina e branca, de outro rochedos agrestes e arbusto rasteiro, o preferido das aves que não deixam os ovos enterrados.

Gordon W

Envolta em leves tecidos tão brancos como a areia, Irene ergue-se com o romper da aurora. É assim desde que se mudou. O chilreio do despertar das aves pela corrida ao alimento, é o despertador.

stan trampe

É governanta da mansão de um casal que, só de vez em quando, chega com o veleiro e uns tantos amigos que nadam, comem, bebem, deixam garrafas na areia e copos pelo chão e partem de seguida, como se fosse muito divertido ser assim.

Não os detesta, não sabe o que isso é. Ignora-os e limpa o estardalhaço que lhes fica para trás e, disso vive.

Todo o tempo que sobra passa-o a estudar as aves e a ler ou a brincar com a criança que não lhe sai de perto.

- És lindo!

Acaricia o rosto do menino que dorme e desce à praia. Ele sabe-lhe o rasto, se acordar.

Pensa em André. Pensa todos os dias, mas mais quando chegam as aves, como agora.

- Ele seria certo se soubesse respeitar "um golpe de asa".

Mas como dizer-lhe que não podia amá-lo por sabê-lo capaz de matar, se para ele matar é matar gente apenas?

Um dia, uma noite? Subi a escada e eu própria voei sem som de penas.



Giannis Kokkinos


A Liberdade é lá em cima, atravessado o escuro verdadeiro.



(segue)

Durante o café a memória mais fresca.

- Ela parecia enlouquecer por esta altura. Tanto passava horas junto à praia a ver chegar as aves, como subia aos locais mais íngremes para ver as ninhadas.

Só nisso não andávamos juntos...


ABrito

- Sim, tu e o teu grupinho de tolos preferiam caçá-los. Muitas vezes lhe vi água a bailar nos olhos, quando sabia das incursões à noite de lanterna em riste. Era o massacre.


Bill Schmoker

- Não exageres. Eu nunca cacei crias, sempre me deu prazer caçar em voo. Afinal elas são aos milhares, época adentro...que diferença fazia?

- A ti nenhuma. Já a Irene sei que importava e muito. Somos amigos desde sempre, lembras-te?

- Sim, ela tinha até uma hábito que me dava ciúmes confesso, o de chamar-te irmão.

De novo a garagalhada de Fernando. Riram ambos, como se tudo se tivesse passado há muito tempo já.

André voltou para a casa pelo lado da praia, tinha intenção de preparar o barco e ir à Ilha Branca, ainda que a fé de encontrar Irene fosse quase nenhuma mas, tinha lá tanta história a reviver...

- Um ninho. Um ninho aos meus pés. A minha mãe teria um sentido para isto... eu não. Mas é a primeira vez que a maré me traz um ninho. Que estupidez impressionar-me assim!


at all-creatures


- Amanhã, irei à outra ilha manhã cedo.


(segue)

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Pela manhã

magda marczewska

abriu a porta ao sol que havia.


- O Fernando deixou que a casa em volta virasse um matagal. Se houvesse um fogo por perto lá se ia uma casa com história, a minha história. Hei-de ajustar contas com esse mau pagador de promessas.


A própria mata e as praias mais abaixo e as ilhas pequenas tinham não só a história dele, a dele com Irene.


Ann Chaikin

- É claro agora porque estive dois anos sem voltar. Tudo foram patéticas justificações arranjadas por mim para adiar isto, este vazio...

- Já falas sozinho André? O continente fez-te mal.

A gargalhada do Fernando, incomparável, arrancou-o às memórias doridas. Primeiro puseram em dia as novidades da terra e da experiência de André, depois foi o amigo que abordou o tema.

- Estavas com aquele olhar perdido com que te víamos quando a Irene te deixou.

- Ela não me deixou. Não tínhamos compromissos nessa altura, sabes isso...

- Expressos talvez não, mas o que se vive em conjunto forma um compromisso provavemente com marcas mais profundas. Ainda não vês isso agora?


James Stanley Daugherty


Via. Via e via a mulher que perdera sem entender porquê, por toda a parte.

- Deixa esse olhar de cego à espera que o mar a traga e procura-a!

- Mas onde?

Apercebeu-se e quis retirar a frase, mas o amigo não deixou.

- É o tempo das aves. Irene amava esta altura do ano. Ainda te lembras aonde nidificam?

Vem, vamos tomar café.


(segue)

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Por fim avista a sua terra.

gerard laurenceau


- É tão bom estar de volta. Nunca me adaptei verdadeiramente ao sítio aonde vivo agora. E sei que vou voltar. Tivesse eu alguém que me esperasse aqui e voltaria já.

Parti por ambição? Não, parti por muita raiva! Quando a Irene se foi sem deixar rasto nem os abraços dos amigos suportava... Foi-se e nem aos pais disse para onde, antes ou depois. E eu que pensava conhecê-la...

Estacionou por trás da casa dos barcos. Está escuro demais para verificar se o dele tem sido tratado ou não.


by wiz66

- Eu na ilha sem barco sou como um homem sem água no deserto.
Entrou em casa. Pousou as malas. Subiu a escada e foi tomar um banho. Não queria mais agora que dormir.
Mas o pensamento tem truques que nem o cansaço vence, muitas vezes.
- Irene! Tenho saudades dela, do seu cheiro, dos mamilos como ponteiros agudos, do cabelo, da boca, das conversas depois ou antes. Era tão bom ouvi-la falar, de olhos fechados, como quem ouve música.

MoreyStudioNew.

- Hoje teria ido em busca dela, nem que fosse para entender. O orgulho mandou mais e eu não fui. Será já tarde?

Demorou muito até adormecer.

(segue)

A mãe!... chega a melancolia.

Tinha morrido sem o entender.
Os tempos eram revolucionários. Duros para a geração dela.

Inevitável foi lembrar os tempos da praia livre, dos acampamentos, das violas, das trocas filosóficas, do fumo, do vinho...das flores.

- Nós não tínhamos vergonha de uma flor na mão, nem pudor da nudez que os outros proibiam. Nós sabíamos Ser!


Manolis Tsantakis.

Tanta memória a vir à tona a rodos! Imagens sobre imagens, sinestesias, essas sensações que trazem cheiro cor som e paladar, como a daquela rocha ali à frente e o perfume intenso do corpo de Irene a invadi-lo.

- Que será feito dela?

Depois, arrependido, continuava o seu monólogo no nevoeiro:

- E isso interessa? Nada anda para trás. Eu fui-me embora. Sou hoje um burguês bem sucedido, respeitado na Ilha. Arredondei arestas como o mar faz aos contornos desta terra. Só não casei como a minha mãe queria...

De novo a mãe. Era assim nos regressos, depois abrandavam as memórias e perdia-se no meio do novo que houvesse, na terra onde nascera.


at Cepolina

Mas os sentidos tinham despertado com o odor a maresia e árvores e o rarefazer do ar, agora que subia...

- Irene! porque nunca foi possível repetir-te em nenhuma outra mulher?

(segue)

Terça-feira, Agosto 01, 2006

A Ilha.

Enfim férias!

Já há dois anos não sabia o que isso era. Ter uma empresa própria fora um sonho de sempre e conseguira. Agora as responsabilidades tiravam-he mais liberdade do que esperara.

Voltar à sua ilha! Só isso fez com que cantarolasse ao volante apesar do nevoeiro. O nevoeiro de sempre. A isso estava ele acostumado. A sua terra era feita de árvores rios bruma gente e claro, mar.

eve andersson

Mar, podia encontrá-lo em quase todo o lado...

Falso. Não aquele. Azul intenso, forte ou manso, conforme queria acalentar ou aterrar.

Era comum amar e temer o mar que circundava a Ilha, mas ele limitava-se a amá-lo, desde menino. Desde os tempos em que fugia à mãe, para correr de pé descalço para a praia e ficar a ouvi-lo a perfurar as rochas.

Paul Williamson.

Fase de migração das aves, aproveitaria para caçar. Quando tinha família não podia. Tinha de enfrentar uma guerra ecológica com a mãe e acabava sempre por perder.

Súbito parou. Um pássaro parecia ter-se suicidado de encontro ao espelho retrovisor.

Entristeceu.

- Se a minha mãe estivesse viva ainda, chamaria a isto um mau presságio... Disparates de ilhéu!


Eugene Alaverdy

E para não pensar na mãe, acelerou.



(segue)

Quinta-feira, Julho 27, 2006

INTERVALO

JJ André

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Já deitada e sozinha

Paweł Sujecki

não dissimulava a dor que a invadia.

Parecia receber informações directas ao seu cérebro, com o som da voz da menina escocesa e imagens, catadupas de imagens, a contar-lhe a história do ressuscitado, da mulher e das filhas.


armindo dias


Desperta, sabia que o que via e ouvia não era sonho ou ilusão dos sentidos. O que mais lhe doía era ver-se sempre como uma intrusa entre os dois amantes.


stan trampe

que se procuravam na sua presença, mesmo nos momentos mais íntimos.

- Maldita a hora em que vi esta casa!

Mas rápido lembrou quem a trouxera até à cidade do subúrbio. O marido!

Renata Ratajczyk

É cósmico e eterno o amor deles. Nada pode fazer. A antiga mulher morreu para lhe salvar a vida. Chegou a vez dele voltar para ela. Deixe-o morrer!

Tina gelou ao ouvir a voz serena da espirita que via no pão e na chuva, as vidas todas.


Virgilio Amorim

Súbito e quase sem entender porquê, chamou a empregada. Pediu que lhe guardasse as roupas, os livros e as fotos e chamasse um carregador.

Partiu por fim, deixando para trás uma carta de adeus cheia de amor, mas sem explicações.

O carro atravessou um túnel musgoso no regresso. Um túnel que parecia nunca ter sido atravessado antes, ou já há muito tempo ter deixado de o ser.

- Não me lembro de ter passado por aqui.

Saída do túnel, viajou direito a casa da avó. Única pessoa que talvez entendesse o pouco de concreto que tinha para contar.

Horas depois recebeu um telegrama a avisar que o carro do marido tinha caído ao lago. Estava morto.

Chorou-o como uma viúva faz mas, com a certeza de o ter feito feliz.

- Foi bem amado este homem, duas vezes...

Deu consigo a dizer.



Fim.

Quem lhes abriu a porta

Katia Chausheva

era quase criança mas sem o ar feliz de quem de facto é.
Levou-as para uma sala minúscula. Acendeu uma vela. Partiu à mão o pão com aroma a acabado de sair do forno e sentou-se por fim.
Concentrou-se em duas gotas da chuva que, momentos atrás, caíra numa pétala de rosa, o corpo sacudiu-se-lhe num estranho estertor.

- Eles estão juntos, neste momento mesmo, junto ao lago. São marido e mulher e amam-se muito. A Senhora quem é ao dono da casa nova?

- A mulher dele.

- Não devia. Não pode. Ele casou uma vez só. Usa ainda a aliança antiga. Nunca se separaram...

stan trampe

Nunca vi até hoje amor igual ao destes dois. Que aliança tem a Senhora no dedo? aonde a conseguiu?

- Fizemos uma réplica a partir de um anel que era para ele um talismã. Conte-me tudo! Não vê a aflição em que me pôs e em que vivo?

- Não vai gostar muito do que sei.

- Por favor!

- Terá de o amar realmente se quer voltar à paz que bem merece. Que seria capaz de fazer pelo Frank?

- Frank? Mas quem é esse?

- O seu marido antes de morrer.

- Não entendo o que diz mas por ele daria até a vida.

- Ninguém lha pedirá.


Katia Chausheva

Em transe a rapariga murmurava uma história que angustiava mais e mais o coração de Tina.

gagliani

- Eram uma família feliz. Ele era rico. O pai era empresário e dera-lhe a gestão da empresa quando o automóvel em que o casal seguia com as gémeas, caiu ao lago e se afundou.

As meninas morreram nesse instante, a mãe sobreviveu e ao ver o marido desmaiado ao volante, esforçou-se e empurrou-o até à tona de água. Estava morto e ela não sabia. Os médicos ressuscitaram-no. Para ela foi o último esforço.


JJ Andre


Amou-o assim.
Até você surgir, ele deambulava por aqui a encontra-se com ela nos dias de nevoeiro. Com ela e as meninas.

As três precisam dele para ter paz. Devolva-o!


Louis Steiner


- Que diz? Que disparate é esse?

- Devolva-lhe o marido. Ele nunca foi ou será seu...

os médicos...não deviam tê-lo reanimado... estava morto... a morte tem um tempo, tinha chegado o dele...

Uma mulher entra em passos silenciosos.

- Deixem-na agora. Não me matem a filha. Ela já não tem energia para mais. Se alguma coisa faltou dizer ainda, ela saberá como fazer com que a entendam. Mais tarde. Quando ela puder.

Saíram em silêncio e em silêncio desceram a montanha até ao lago, para onde Tina se recusou olhar.



(quase fim)

Domingo, Julho 23, 2006

Pouco descansou Tina,

ao despertar Eliza estava ainda junto a ela. A ausência do marido e o que vira, fizem-na contar tudo o que até aí guardara para si.

- Ai menina, tanta coisa estranha! Bem me avisaram do amor fantasma preso nesta casa. A minha própria mãe me disse que não me impressionasse com o que visse e deu-me este amuleto contra as possessões. Foi buscá-lo às espirítas escocesas, aquelas que vivem há 10 anos na casa velha. Era lá que a menina havia de ir.


sandi knell

pode a menina não acreditar, mas a mais nova delas, acerta em tudo. Nada até agora foi falso ou não se confirmou. Vem gente até da capital para a consultar...

- Eliza, depois da noite de ontem, eu já arrisco tudo. Tenho medo de enlouquecer aqui sozinha se isto continua.

Stan Trampe

Na floresta, uma jovem solitária parecia escutá-las e aguardar.

- Vamos então menina, o caminho é difícil e de carrinha não chegaremos lá.

- Espera vou buscar a carteira.

- Não precisa, nunca aceitam dinheiro, nunca. Para a mãe da menina das visões, aquilo é mesmo a maldição da filha - viver entre dois mundos!... - costuma ela dizer.

Quase se escondem, mas não se recusam a ajudar ninguém.

- Estranho. Mas faz-me confiar um pouco mais.

- Não faça perguntas por favor.

- Como é que ela adivinha se eu não lhe der os dados?


Rob Gray

- Lê nas gotas de chuva ou de orvalho, consta também que faz para cada pessoa um pão, que reparte, e só depois começa a sessão.

Federico Mena Quintero

- Estás a assustar-me e temos pressa.

Mas o que realmente Tina pensava era : a minha vida contida em água e pão?



(segue)

Sábado, Julho 22, 2006

- Ai a pobrezinha!

Katia Chausheva

que lhe aconteceu?

Menina, acorde! Ai que aflição! Até parece que eu estava a adivinhar... acordei num sobressalto a ouvir o meu nome. Até parecia que era o senhor Thomas a chamar.

Vá apoie-se a mim D. Tina...isso! Respire fundo. O que foi já passou. Andar a sair em noite de trovoada, se já se viu? Se calhar foi susto ou tropeçou encandeada por um raio.

- Eliza, olha ali!

- Onde menina?

- Ali ao fundo, mesmo ao pé do lago...

- Não vejo nada. Venha para a cama menina, mal se lhe ouve a voz e o sol mal nasceu ainda, apanha uma friagem que adoece. Isso, mais um passo só...

- Não vês ali o senhor abraçado a outra mulher?


Arny Zone

- Não estou louca e conheço o meu marido. E ela é linda!

Dizia ele ter a estrada barrada...

Tina desmaia na entrada da porta, de cansaço, de medo , de ciúme?

Eliza olha então na direcção do lago enquanto tenta levar para dentro a patroa caída na soleira.

- Meu Deus! Estão ali estão e dentro de água. Casadinho há uns meses... coitada da menina!

Baixa a cabeça para erguer Tina e ao reerguê-la, já não vê ninguém.

- Que o Senhor me abençoe! Parece bruxaria!

(segue)

Quinta-feira, Julho 20, 2006

Intervalo

at bop.nppa

Terça-feira, Julho 18, 2006

tudo se precipita

Tina nem se apercebe ao acender a luz da sala, de que pisa um chão revolto, senão ao tropeçar.

Douglas Prince


- Socorro!

Grita, sabendo bem que ninguém a ouvirá. A empregada descansa no anexo a essa hora e uma trovoada, sem chuva agora, atroa o ar.

- Mas quem andou aqui? O que querem de mim?! Que mal fiz eu para merecer isto?
Respondam!!!


Vozes, vozes ininteligíveis. Os ouvidos atordoam-na, sente-se à beira de cair. Olha para cima como em busca Deus e vê o tecto a borbulhar numa líquida ebulição
.


Tom Vaughan

Aterrada, abre a porta e sai para o jardim. Mas nem aí encontra qualquer paz.

- Quem és tu? Que me queres? Onde estão os teus pais?

Grita inconscente à menina de branco que lhe estende os braços. Foge dela, até que por fim ouve uma voz de criança vinda de todo o lado:

- Devolve o nosso pai!

by becky

Não lhe responde já. Cai redonda no chão molhado ainda, sem ninguém que a possa ver ou socorrer.

(segue)

Segunda-feira, Julho 17, 2006

- Thomas não tarda a chegar...

disse Tina, num murmúrio para se pacificar. espécie de oração.

num acto de coragem foi até à janela para espreitar sem se expor. chuva, não viu mais que uma chuva torrencial. lá fora escurecera.


at inxor.org


acendeu as luzes. lavou o rosto pálido de medo, penteou os cabelos.

o telefone tocou.

- sim... meu amor! que bom ouvir-te! amo-te tanto!...quê? uma derrocada? não podem passar?!

- que se passa contigo? fazes eco de tudo o que te digo, estás ansiosa.

sabias há uns dias desta viagem de trabalho amanhã. a diferença é não poder ver-te hoje, com a estrada barrada. é só uma semana.

tens a carrinha, amanhã a estrada deve estar a funcionar. visita umas amigas ou os pais, se não te apetece estar sozinha.

- tens razão. tenho muito por arrumar ainda... tantos livros! aproveito e faço isso.

as lágrimas corriam. sufocou-lhes o som. despediram-se e desabou então em choro convulsivo. não lhe falou do medo que sentia, como se fosse culpada pela compra da casa.


at ghostvillage

Tina atirou a coragem para cima dos ombros como capa a protegê-la.

voltou à janela. lá fora, a água que em dilúvio desabara a ponto de bloquear estradas, evaporava-se agora em formas estranhas fantasmagóricas, a uma velocidade alucinante.

estremeceu, correu a trancar portas e janelas.

- amanhã peço ao padre que me abençoe a casa e aproveito para saber a história de quem por cá passou. a história toda.

(segue)

Sexta-feira, Julho 14, 2006

uma chuva refrescante aliviou-a

Frantisek Staud

sem acreditar em fantásticas procuras nem almas que regressam, corpóreas, em chamados pungentes pelos amantes perdidos, tinha no entanto pouca vontade de regressar sozinha a casa nesse instante. decidiu passear e alinhar ideias.

- talvez devesse mudar mesmo de casa... mas pensando bem, que foi que aconteceu? um rebanho que não estava lá e duas crianças que também não estavam. ilusões ópticas muito provavelmente. ando a escutar demais gente pouco informada. eu nunca fui assim.

foi nesse instante que se fez subitamente noite de lua cheia. sem mais nem menos, num pestanejar.
ainda viu uma mulher com asas de anjo. seriam de anjo e asas? pareciam dois apêndices brilhantes. como duas partes dela que sem lhe pertencer a ladeavam. Tina teve medo pela primeira vez.

Jose Marafona

correu aos tropeções para onde lhe parecia ser a direcção de casa. não conseguia vê-la de onde estava. à chegada trancou a porta e encostou as costas na parede como se isso a pudesse proteger.

- será esta a mulher? se é, que quer ela de mim? não a sei ajudar se é que há ajuda para espíritos errantes...

vai em paz! vai-te embora! não sei do teu marido! deixa-me ser feliz!

deu consigo aos gritos. a verdade é que o que viu a fez acreditar.



(segue)

Quinta-feira, Julho 13, 2006

pela manhã

Tina tomara uma decisão. afinal fora ela a insistir naquela casa, seria ela a descobrir se realmente havia alguma excentricidade ligada a ela.

os jovens vêem a morte distante sempre, por isso têm poucos medos e coragens grandes.

J. Walter Thompson

nada sabia do paranormal, sequer se havia. a única coisa que tocara ligada a isso, fora uma bola de cristal em casa da avó. peça de arte que a fascinava pelo brilho. a avó ofereceu-lha e tinha-a numa mesa de canto da sala. sem mistério.

perto dali conhecia o oleiro, um artista a quem encomendara peças para decoração. era já muito velho mas as mãos trabalhavam com agilidade juvenil.

- se alguma coisa houve, ele há-se saber. tem idade para duas gerações de histórias destas.

e foi.


at DigiCamPlus

- a senhora desculpe, mas de que casa fala? da sua ou das três que desabaram depois da morte das gémeas?

- desabaram? gémeas? conte-me tudo mestre Amilcar, eu preciso saber!

- pouco há que contar que seja um facto. morava naquele espaço um casal com duas gêmeas. morreram mãe e filhas num trágico acidente. o homem parecia enlouquecido pela dor, até desaparecer.

- só isso?

então porque lhe chamam assombrada, à minha casa?!

- dizem que mãe e filhas o procuram. ele não voltou a aparecer, vivo ou morto que fosse. e olhe que até a polícia o procurou...

- que loucura! desculpe mestre Amilcar... alguma vez as viu?

- não sou de dar conselhos nem lhe respondo a isso. sabe lá um homem a verdade do que os olhos registam...

saia daquela casa. não demore.

amassou o barro da peça que estragara e atirou-o para o monte de argila ao lado. Tina não lhe arrancou uma palavra mais.

foi com maior inquietação que regressou e, de longe, olhando agora a moradia restaurada, pareceu-lhe sombria e decadente.


VinS B

- disparate! eu não quero nem vou acreditar.



(segue)

Quarta-feira, Julho 12, 2006

podiam ter trocado a moradia

mas Thomas nem se atreveu a falar disso quando viu a mulher pela manhã, feliz como uma garça, aproveitando na janela do quarto os primeiros raios de sol.

Pavel Krukov

- não vais esquecer a recepção da noite, vens cedo meu amor?

- claro que sim.

sorrisos. asas de anjos prepassando entre eles. nenhum mal os podia antingir e até ele esqueceu.

a casa estava bonita agora. ao seu gosto. olhou-a e acreditou que a sonhara assim.

autor não identificado

- acabaram-se os veludos pesados e indiferentes, as típicas mobílias compactas inglesas a escurecer o branco das paredes, os frescos. teremos luz na nossa vida. este é o nosso lar!

pediu uma merenda leve e foi passear para a mata circundante, o seu reino.

duas meninas vestidas de igual e de mãos dadas, brincavam por ali. nunca as vira desde que se mudara, mas a ideia de ter crianças perto, alegrou-a. queria ter filhos. muitos! como costumava dizer.
chamou-as. não vieram.

CF

pensando em timidez aproximou-se mas ao chegar, estendeu as mãos para dois troncos de árvore. nada mais. não havia som ou rasto de criança.

desta vez, voltou para casa ofegante e a correr.

- eu vi-as. estavam paradas, muito sérias e olhavam para mim. não estou a alucinar!

só para não estragar a inauguração da casa não contou ao marido o que vivera, mas este notou-a ausente e sentiu-lhe no rosto a falta do sorriso franco.

(segue)

Terça-feira, Julho 11, 2006

qualquer medo subterrâneo

que a conversa tida com o o grossista lhe tivesse deixado cair no inconciente, esbateu-se com a chegada do marido.

René Asmussen

jantaram, conversaram e amaram-se em paz, sem medo de papões. só quando já se preparava para dormir a referiu a Thomás. estranhou-lhe a reacção. não riu, pelo contrário as pupilas que ela tanto olhava contraíram-se e um esgar incontrolável marcou-lhe a boca suave.

- que foi? diz! não vais acreditar nesse disparate de casas assombradas, vais?

- sabes bem que nunca gostei muito dela, mas está linda agora e eu também não quero acreditar...

- não queres? mas que se passa?

- nada. dorme meu amor.

- não. eu tenho de saber.

- já sei que não te calas enquanto não contar. mas deve ter sido só cansaço meu... foi na vinda para casa, ali antes da curva, na chegada. um rebanho que não estava na estrada surgiu como se fosse mágico e duas ovelhas pararam frente ao carro. por pouco não morríamos, eu e o motorista.


Jack Picone

súbito os travões não funcionaram. foi horrível.

- ó meu amor!

- espera, o estranho mesmo foi que o rebanho, depois de ultrapassado, desapareceu tal como surgira e não chocámos com ovelha nenhuma. também o carro voltou a funcionar. o Gomes estacionou e agarrou-se à cabeça. ele que é condutor de profissão...

deitaram-se em silêncio.

Tina tinha no cérebro uma frase do marido, se calhar foi só cansaço meu...

- cansaço? e o Gomes viu o mesmo? há alguma coisa muito errada aqui.

demorou a adormecer naquela noite.

(segue)

Segunda-feira, Julho 10, 2006

final feliz...

uma história com amor que baste para acabar aqui: ... e foram felizes para sempre.

Renata Ratajczyk

não fora Tina pertencer à aristocracia rural e ser pouco dada aos negócios citadinos do marido. daí aliás, a escolha e a dedicação à casa e à larga parcela de terreno que a cercava.

a casa foi quase refeita toda. a mulher escolhia, vigiava e ia à cidade vizinha escolher ela própria tintas e tecidos para a fase final. foi numa dessas idas trabalhosas, que um comerciante perguntou que casa nova estava a ser construída que não vira nada novo por ali.

- é minha a da colina, sabe, a que estava à venda e penso que por tão escondida não vendiam? linda! e então o lago, a cascata interior, os terrenos em volta... foi uma sorte a minha!

- a casa da cascata? a assombrada? e diz a menina que isso é sorte?...

- claro. espere, você disse assombrada? de que disparate estaremos a falar?

soltou a gargalhda alegre do costume. não era de crendices. mesmo fé tivera-a até à primeira comunhão, por insistência e tradição familiar.

- esqueça o que eu disse. coisas que se contam... não vai viver sozinha lá, ou vai?

- não, claro. acabei de casar.

- a senhora desculpe, parabéns! sejam muito felizes e passem sempre por aqui! para clientes vizinhos, fazemos sempre uma atenção especial.

o homem parecia embaraçado, quase a acelerar a transacção, mas Tina não valorizou isso. era feliz, que mais podia querer?


José Marafona

ao passar pelo lago olhou-o como sempre, mas pareceu-lhe morto, esverdeado de limos e um dos barcos ali abandonados, parecia mesmo estar a afundar.

- que disparate! influência desta conversa tola de província. vou ter de me acostumar.

(segue)

Domingo, Julho 09, 2006

a casa.

eles eram o tal casal perfeito das histórias côr-de-rosa e ambições de pais.

o sucesso e a beleza tinham unido as mãos e havia amor. palavra cada vez mais em uso e cada vez menos levada à prática, mas não no caso deles. este casal amava-se.


Stan Trampe

praticavam e diziam todas as loucuras dos recém chegados ao grupo dos amantes que se casam.

- e se comprássemos casa aqui e ficássemos para sempre nesta terra? é tão bonita!

- amor, eu queria tanto como tu que a lua de mel durasse sempre mas os negócios esperam, o meu pai não aguenta já tanta sobrecarga, não é novo...

- mas viver com eles eu não vou. isso está decidido.

- vão ficar infelizes, desde que te conheceram que te imaginam como mais uma filha a cirandar pela casa e a alegrá-la...

- e tu? não preferes que alegre a nossa?

- tens razão minha querida. amanhã partimos e só paramos depois de comprar o nosso castelo.

palavras banais. ridículas se não sussurradas ao ouvido entre beijos húmidos de luz.

regressaram.

nenhuma casa agradava a Tina, sobretudo as novas.

- são tão frias!

- mas não precisam de obras. poupam tempo. sabes que não terei muito para me dedicar a orientar pedreiros ou decoradores.

- eu trato disso. será o meu trabalho.

por fim encontraram uma, anoitecia já, era num pequeno monte.


FP photography

- que vista vamos ter ao acordar!

- tens a certeza, Tina, é aquilo que queres? parece ter já séculos e é triste.

- eu tratarei de a transformar num palácio digno de ti, descansa amor.

de nada serviu que o próprio vendedor quisesse mostra-lhe outra moradia e parecesse inquieto até sair dali.

a palácio era dela e não havia nada a discutir.

entraram na casa dos pais dele tão felizes como jovens vindos da primeira saída nocturna, e amaram-se como se fosse a primeira vez.

(segue)

Sexta-feira, Julho 07, 2006

INTERVALO (breve)

by Yuri Bonde

Quarta-feira, Julho 05, 2006

Primeiro jantei

Foto de Dionísio Leitão

para quê a pressa o final estava escrito? falso, verdadeiro? quem se iria importar?

pedi boleia a uns amigos e subi o monte. a minha idade já não é para escaladas.

queria uma verdade nesta história. uma que fosse. não que alterasse nada a quem a lesse. romances de faca e alguidar há-os na minha rua e não me dou ao trabalho de abrir a janela sequer.

mas Rita é nome de tia minha. aí o caso muda de figura.

ela subiu a montanha antes que ele acabasse de a procurar pelas cidades do cais.

era a ele que queria?

não. segurança para o filho e isso estava na montanha, não no porto.


craig froehle

Gomes, o amigo fiel do amante, abriu-lhe a porta e não só.

alívio em filho e mãe! por fim um poiso!


Chuck Gordon

para quem não chegou como eu ou ela, de carro, a subida foi dura.

Raul, era esse o nome? viu as luzes da própria casa acesas, espreitou o suficiente para entender.

não bateu. não perguntou nada. deitou a cabeça numa pedra e adormeceu, até os melros começarem a cantar.

- o barco parte daqui a dois dias. ainda vou a tempo de embarcar.

iniciou a descida. perdera uma bota no caminho.



(eu tinha prometido telefonar...)

Terça-feira, Julho 04, 2006

CIAO

Matt Marcinkowski


Quando chegar lá,
telefono.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

Chove e já não é neve.

Foi-se o inverno. Desfazem-se os nós das almas castigadas.

Um menino bebe pela primeira vez gotas de água que lhe descem do céu. Nenhuma escola lhe ensinaria isso, nem o cheiro lavado que o ar tem.


FW

A mãe teme ainda os caminhos, busca pistas que a levem ao homem de quem lembra o nome. Foi só um. Os demais, já esqueceu.

elizur amir laconic


Uma gota cai-lhe nos olhos ou dos olhos? a tirar a pintura que sobrou e, ela sorri.


Gene Wilburn

- Se ele estivesse aqui, saberia os caminhos por cada árvore, cada traço de animal rastejante ou que buscasse o rio, eu não sei nada mas o meu filho em breve saberá.

Wiel Schmtz

Raul chegou cansado, também a ele as corolas ofereceram alívio à sede acumulada e lhe lavaram os olhos já fartos de pesquisar a noite, a procurar o quê?


Rob Gray


- O menino lerá os livros que ele compra nas feiras aos ricos que vendem as casas e o recheio, para voltar à cidade. Livros a metro que enchem casas a metro e ninguém lê. Isso lhe bastará.
Isso e o riso das aves, os saltos dos esquilos e das corças. O som dos rios correntes, a magia e a paz do murmúrio das folhas quando há vento.

E não será pecado nada em volta.

Amaldiçoa os pais e a fé hipócrita que enche as igrejas deles e já nem deixa que Deus lá caiba para os poder salvar.

Depressa esquece e corre com a força que lhe sobra, na direcção do homem que glorifica a vida porque os vê chegar.

Paulo Cesar

FIM

Mulher. Homem. Menino.

Três peças soltas desenhadas para nunca formarem um puzzle?
O homem segue de regresso os próprios passos.
A mulher perseguida por quem a abandonou, tenta agora esquecer os corpos que se lhe amontoaram na retina.

Pawe Sujecki

O filho segue o caminhar da mãe sem entender porque mudou a vida. Feliz no entanto.

- Aonde vamos mâe?

- Para longe filho, sempre para mais longe.

- Longe de quê?

- Do passado filho. De tudo o que passou. Vamos olhar em frente e caminhar sem sequer olhar para trás. Nada ficou para trás, nada.

- Não entendi...

- Hás-de entender um dia.

Mas não é bem assim, não dentro dela. Prometera nunca se apaixonar... Promessas juvenis feitas de raivas quentes.

- Lembras as fotos que te deixei, as que gostaste, da montanha gelada de casas brancas à beirinha dos rios?

- Ainda as tenho?

- Gostavas de lá ir?

- Levas-me mãe?

- Levo-te para onde vou. E essa montanha parece o meu caminho.

Mas seria a montanha? Ao falar dela um rosto surge, manso, carinhoso, amante.

at Haloimages


E pensa.

- A quem estou a enganar? Irei ainda a tempo? Fugi sem uma palavra mais. Perdoará?



(Pois, não acabou)

Domingo, Julho 02, 2006

Esmeralda, encontrou-a

junto à porta de casa. Caída, o filho sobre o ventre. Delirava.

Se ele pudesse entrar naquele delírio de criança, filha de pais católicos, daqueles que se dizem até romanos, como se o credo não tivesse mudado. Ah, as religiões incutidas de berço sem direito a escolher...

Tinha medo do inferno. A pureza perdida, o filho de ninguém. Honrarás pai e mãe.



J J André

- Não mãe! Pai pai, ajuda-me!

-Traz um pano com água gelada, Catarina , e depois uma sopa bem quentinha. Ou muito me engano ou esta desgraçada há dias que não come.

Não foi logo para a vida. Trabalhou em balcões, a dias, fez um pouco de tudo, até que o filho precisou de um colégio. Aí o dinheiro não bastava e ela queria-o educado como fora, bem.


Katia Chausheva

Depressa aprendeu poses e truques. Os homens são tão fáceis de iludir. Querem ser enganados e pagam bem por isso.

- Não gosto de te ver estragar a vida assim filha, tu mereces melhor. Deixa o menino com o primeiro ciclo e quando trabalhar que estude então. Quem não pode não carrega. É a vida...

- Estragar a vida? Estragaram-na um dia, o dia em que eu amei. Esmeralda, também tu merecias melhor, muito melhor.

- Não te deixes cair de beicinho por nenhum por mais que te digam que te adoram. Promete-me isso.

- Não é preciso prometer. Eu já não sou capaz.



(seguimos? vamos ver...)

Sábado, Julho 01, 2006

Nasce-se criança

ninguém nasce já homem ou mulher.
Rita não foi diferente. De menina passou a rapariga. Sonhou tocar piano, casar de véu e ser feliz para sempre, como lhe parecia que os pais eram.


Katia Chausheva

Foi aluna destacada pela inteligência e postura correcta. Atenta educada.

- Parece uma senhora.

Havia quem dissesse. Rita às vezes ouvia e orgulhava-se. Sentia-se diferente das demais e talvez fosse.

Mas a vida não trata os diferentes com carinho de mãe ou professor.

Até àquele dia, àquele homem, nada fazia prever que viesse a ser pasto para as securas alheias, para as insanidades e luxúria que cedo conheceu.

by Yuri Bonde

Tinha dezasseis anos e um amor. Era assim que pensava até fazer a análise e contar-lhe que tinha no ventre quase infantil, outra criança.

O homem sorriu, acarinhou-a, disse-lhe até:

- Que bom Rita! Vai ser uma menina como tu, linda e doce.

O homem não voltou.

Escondeu a gravidez até poder. Quando contou aos pais, a mãe adoeceu. O pai culpou-a.

- Volta para ele e que te crie o filho. Aqui não ficas mais. Destruíste os nossos sonhos. Já não és a fiha que criámos. Vai-te embora!

De tantas noites dormir nos clautros, acabou por ter o filho num mosteiro, ao abrigo do segredo de confissão.

Dias depois fugiu, filho à ilharga, pendurado quando o cansaço era demais.

Ela própria de vida pendurada nas mãos de um deus, que às vezes adormece.

.....aka..... (akawisz)




(lá terei de continuar...)

Sexta-feira, Junho 30, 2006

Ao avistar o mar

estremeceu de erro.

- É lindo. Contém todos os rios que encontrei e muitos mais, mas é salgada a água, não mata a sede de ninguém. Não alimenta árvores com frutos. Nenhuma mãe como Rita, como eu a sinto, traria o filho para um porto se queria protegê-lo.

Paul Williamson

Ficaria seca rápidamente. Seca e veha, de raízes à solta. O fruto morreria.


Andy Ilachinski


Temo estar enganado. Perdi-a uma vez. Fiz todo este percurso mas não quero continuar agora. Nem eu próprio me entendo. Devo ter enlouquecido ou estou cansado demais para raciocinar.

Fiz coisas, que nem imaginava conseguir, campónio como sou. Até em minas trabalhei no caminho, por uma sopa uns trocos um pedaço de carne.

Se estiver enganado, ficarei conhecido como o homem que fugiu do mar.


by Jim McNitt

Pensando tudo isto, não exitou no entanto. Virou costas ao mar começando a subida. Directo a casa, puxado pelas raízes e o degelo que alagava os vales.

Rita era a sua neblina.




(fim da 1ª história agreste)

Enraizado na montanha

sentia-se agora dividido entre a terra e o mar. Era urgente seguir os rios, descer sempre até encontrar o que perdera por confiança em excesso ou distração.

MC Cassino


A certeza do amor tivera-a quando lhe soube um filho e o sentir redobrou.

- Cada um de nós nasce incompleto, eu encontrei a minha metade. É ela. Tudo o resto são consolações que arranjam os que nunca encontaram a sua, para sofrer menos, para ter uma ilusão de companhia, nada mais.

Dormia pouco e pelos montes sempre. Não viera preparado para viajar. Cada flor que acordasse à sua beira na manhã orvalhada, colhia-a para Rita. Sobretudo as brancas.


le pepeq

Rita assumira a dimensão da virgem que uma seita maldita está à beira de imolar.

- Se ainda não o levaram, ninguém lhe tirará o filho que já sinto no peito como meu. Assim eu chegue a tempo...

E descia montes. Invadia cidades.



(voltamos breve)

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Na cidade.

- Chamavam-lhe Safira mas o nome era Rita foi ela mesma que me garantiu... parecia uma menina e era loira...

- Safira? Quando aqui cheguei não havia ninguém com esse nome.

E vão-se repetindo a pergunta e a resposta.

- Elas são nómadas...

Dissera-lhe o Gomes, seu amigo da escola, do pé descalço, dos assaltos aos pomares do vizinho por uma maçã que repartiam, ainda com o vizinho no encalço. Por nada. Pelo puro prazer de ser assim.

Ele não desistiu, até encontrar uma mulher mais velha que uma das raparigas lhe indicou.

Stefan Rohner

- Loira? aqui temos a côr que o cliente procura. Esteve aqui sim, a Rita, veio com o filho nos braços a chorar. Fui eu que a recebi e lhe dei quarto e a orientei para não cair na garra da malvadez que por aí abunda.

Um dia, apareceu a polícia, qualquer coisa com o tribunal e tirarem-lhe o filho. Parece que a avó a tinha encontrado e lho queria tirar. Nunca vi mulher mais desesperada que ela nesse dia.

Pela manhã já cá não estava e nunca mais voltou. Cambada! que não era competente como mãe, então quem era? diga!

Agradeceu. Partiu de novo, desceria a montanha, nunca se aventurara tão longe em toda a vida.

Enraivecido contra si e contra Deus!


Llona Wellmann

Nunca se sentira tão culpado ou fora tão pesada a dor e a solidão.

- Porque não me contou? porque é que eu não vim antes? porque escutei os outros?

Irei até ao mar se for preciso. Eu hei-de encontrá-la seja aonde for.

Quarta-feira, Junho 28, 2006

Dois rios paralelos

parallel rivers buddybharath

Dois personagens desencontrados numa peça que alguém escreveu para eles. Onde se encontrarão?

Formarão eles um lago numa planície ansiosa por água? Irão perder-se em separado no imenso mar?

Personagens que são, em comum têm o finito palco da vida e desse não podem já fugir, desde que se encontraram como tal.

Vamos então tentar segui-los. Invadir-lhe as vidas e trazê-las aqui, para que a peça se consume e o público aplauda ou os rejeite


Terça-feira, Junho 27, 2006

Olhada da estrada

elotrolado.net

sentiu a beleza da terra que deixava para trás. Meia alma lhe ficava entornada nas encostas nos vales no rio no casario branco, nas árvores que o tinham visto nascer. Mas tinha de partir.

Aquela mulher levara-lhe a alegria. Desleixou os amigos o trabalho, tudo. Os dias passava-os ora nos recantos que tinham visitado e fotografado ora na estrada esperando que uma camioneta a despejasse nos seus braços. Nada.


O amigo bem tentou evitar-lhe a partida

- Que vais tu procurar? Uma prostituta que chorou no teu ombro. Isso nem é de adulto, caramba! Já tens experiência de mulheres dessas que te chegue para saber que são nómadas. Não se fixam. Vão para onde o dinheiro correr mais.
Tu nem rico és. Pensas que viria contigo pelos teus olhos?

- Vou procurá-la até a encontrar. Que seja ela própria a dizer isso. Se o disser, viro as costas ao amor que lhe tenho nesse instante e, volto à minha vida. Antes não.

- Se fosse na altura...mas passou quase um ano. Que esperança louca é essa? Devias ir ao médico rapaz. Isso é que era ser homem. Estás doente, não vês?

Não via nada, a não ser os olhos doces que vira na mulher, ao despertar na cama dele, nas três manhãs em que viveram a montanha juntos.

Rodney Evans


Partiu.


(mas eu volto)

Se fosse possível

Hrabina Grodner von Buchholz

faria andar para trás o tempo naquela manhã em que ele me abraçou, tão para trás!

Mas a vida não muda, melhor, sonhar não muda a vida. Pelo menos a minha e a das que são como eu.

Se aquele homem não tivesse aparecido no café pertinho do liceu, se não se tivesse sentado na mesma mesa, se não me tivesse pago um café e conversado comigo como se o entendesse, se não me tem feito sentir diferente, amada, adulta...

Se! Porra, mas fez! E agora? Vais chorar outra vez com peninha de ti?

Fizeste um homem infeliz e era um homem bom. Ok. E então? Quem se preocupou contigo quando ficaste sozinha depois de te expulsarem de casa?

Um homem bom... e quantos antes dele te usaram sem te ver?

Tu tens uma razão, não foi capricho, tens um filho a manter, longe de ti para o proteger da vida que há cá fora.

Até quando vou eu conseguir isso? Todos os meses mais despesas. Todos os anos mais roupas e mais livros. Até quando?


iras


Que coisa linda, filho!

A directora disse que pensaste que a mãe não vinha mais. Nunca acredites nisso, nunca mesmo. A mãe há-de vir sempre. Só teve mais trabalho. Um trabalho diferente e muito longe, numa montanha linda.

Vem, senta-te aqui. Trouxe fotografias desse lugar para tu veres.

(não será bem o fim)

Segunda-feira, Junho 26, 2006

Já estás mais calmo? ainda bem.

Photo Stefan Rohner

Tu vais-me desculpar mas
isso era falta de corpo de mulher. Muito tempo isolado. Vives lá no vale, cercado de mulheres bonitas, mas intocáveis se não for para casar.

Foste à cidade encontraste o prazer que te faltava e, confundiste tudo!

Também nunca entendi essa tua relutância em casar. O casamento dá equilíbrio, conforto...


Tivesse sido isso e eu dava-te razão .

Eu estava desassossegado mesmo. Na cidade chovia, uma chuva cerrada, noite do demónio!

Paguei a noite toda e o dia seguinte. Ia com sede, sede de deserto, daquelas de encher de poeira e ressecar, da garganta ao sexo da gente.

Nem a vi, acreditas? Não era a cara que lhe procurava. É que não era mesmo. Só senti, de leve, o cheiro mofoso do quarto dela, depois a pele...

Foi um abre as asas toda a noite. Só parava para dormitar e ganhar forças.

Ela entregava-se ou fazia de conta, mas tão bem!

De manhã fiz a barba, ia levá-la a almoçar para voltarmos para o quarto, tinha o desejo a crescer como erva daninha.

Foi nessa altura que lhe vi o rosto, tinha côr. A noite já se fora. Tinha côr e chorava, silenciosamente. Sem dar pelo que fazia abracei-a.

Ainda lhe sinto o líquido salgado aqui no rosto, do lado esquerdo.

Ela chorava, homem, entendeste?

E eu não sabia porquê...

(vai continuar)

Domingo, Junho 25, 2006

Histórias Agrestes


Admito, talvez ela tenha tido alguma razão naquele dia, mas só naquele.

Afinal de contas eu sou homem, nunca disse ser santo. e ela estava bem longe de ser um poço de virtudes quando a conheci, bem longe!

A merda é que eu continuo a gostar dela mesmo depois de tudo, sabes como é?

Não olhes assim para mim. Caramba, um homem não é feito de ferro, gosto pronto!

Tu nunca aceitaste bem que eu a tenha levado para casa, não estranha que estejas feliz com o desfecho.

Ouve, não me apetece lembrar isso agora, estou danado. Mais recriminações não ajudam a nada.

Eu tenho de a ter de volta, compreendes, mas à minha maneira, não à dela.

Não acreditas?

Quero lá saber da tua fé!



daffy.it

Sabes Gomes, foi a este lugar que a trouxe pela primeira vez depois de a tirar daquele antro, um mundo onde sabe-se lá os riscos que corria.

Isto está morto sem o riso dela.

Apetece-te um copo? a mim também. Vamos até lá abaixo molhar as goelas enquanto eu penso no que hei-de fazer.

Tem de haver uma saída ou a minha vida nunca mais faz sentido.

Deixa-me falar, se não falo rebento!

(amanhã há mais)